Uma crise de doença de Menière é, para quem a experimenta, uma das experiências mais desorientadoras que existem. A vertigem rotatória intensa (a sensação de que o mundo está girando sem parar) pode durar horas, acompanhada de náuseas, vômitos, zumbido ensurdecedor e a certeza de que algo muito sério está acontecendo. Para quem não recebeu o diagnóstico correto, cada crise é um evento aterrorizante e imprevisível.
A boa notícia é que a doença de Menière, quando diagnosticada corretamente e tratada de forma adequada, tem controle eficaz em 60% a 80% dos pacientes com medidas relativamente simples. A má notícia é que ela é frequentemente confundida com outras causas de vertigem, o que resulta em tratamentos errados e sofrimento desnecessário por anos.
Em Belo Horizonte, a Dra. Mariana Castro Denaro realiza avaliação especializada completa para diagnóstico diferencial das causas de vertigem, com protocolo diagnóstico estruturado e tratamento individualizado para doença de Menière e condições relacionadas.
O que é a doença de Menière: a tétrade clínica
A doença de Menière é um transtorno do ouvido interno caracterizado por hidrópsia endolinfática (acúmulo excessivo de endolinfa, o líquido que preenche o labirinto membranoso) que causa distensão do sistema endolinfático e episódios recorrentes de sintomas auditivos e vestibulares.
O diagnóstico clínico é baseado na presença de quatro componentes (a chamada tétrade de Menière) em graus variáveis:
- Vertigem episódica rotatória: crises de vertigem intensa com sensação de rotação, duração de 20 minutos a várias horas (geralmente 2 a 4 horas), frequentemente acompanhadas de náuseas e vômitos. As crises são espontâneas, não desencadeadas por posição.
- Perda auditiva flutuante: o diferencial mais característico da Menière. A perda auditiva piora durante as crises e pode melhorar entre elas, especialmente nas fases iniciais da doença. Tipicamente afeta as frequências graves primeiro. Com o tempo, a perda tende a se tornar permanente.
- Zumbido (tinnitus): geralmente unilateral, de timbre grave ou de "máquina", frequentemente se intensifica antes e durante as crises como um "aviso". Pode ser o sintoma mais incapacitante para alguns pacientes.
- Plenitude auricular: sensação de ouvido cheio, sob pressão ou "tampado", que piora antes das crises e melhora após o episódio de vertigem.
Nem todos os pacientes apresentam todos os quatro sintomas desde o início: o quadro pode evoluir ao longo de meses a anos até que a tétrade completa se estabeleça. As diretrizes atuais da Bárány Society (principal referência em otoneurologia) diferenciam Menière "definitiva" (todos os critérios) de Menière "provável" (critérios parciais).
Fase inicial e fase avançada: como a doença evolui
A doença de Menière tende a evoluir ao longo dos anos, e reconhecer em qual fase o paciente se encontra ajuda a definir expectativas e a estratégia de tratamento. O quadro abaixo resume as diferenças típicas entre as fases.
| Característica | Fase inicial | Fase avançada |
|---|---|---|
| Crises de vertigem | Frequentes e intensas, muitas vezes imprevisíveis | Tendem a ficar menos frequentes e mais brandas com o tempo |
| Perda auditiva | Flutuante, com melhora entre as crises; afeta as frequências graves | Torna-se permanente e progressiva, atingindo mais frequências |
| Zumbido e plenitude auricular | Intermitentes, mais fortes antes e durante as crises | Tendem a se tornar constantes no ouvido acometido |
| Foco do tratamento | Controlar as crises (dieta, diuréticos, betaistina) | Reabilitação auditiva (aparelho ou implante) e estabilização |
Essa evolução varia muito de paciente para paciente: alguns permanecem por anos com sintomas leves, enquanto outros progridem mais rapidamente. O acompanhamento regular permite ajustar o tratamento a cada fase.
Causa da doença de Menière: o que sabemos
A causa exata da doença de Menière permanece parcialmente desconhecida, mas a hidrópsia endolinfática (demonstrada em estudos histopatológicos post-mortem e por ressonância magnética com gadolínio de alta resolução) é o substrato anatomopatológico estabelecido da doença.
Vários fatores contribuintes são reconhecidos:
- Predisposição genética: história familiar está presente em 10% a 15% dos casos; estudos identificaram variantes genéticas associadas ao risco de Menière
- Anomalias anatômicas do aqueduto vestibular: alterações do saco e ducto endolinfáticos podem comprometer a regulação do volume de endolinfa
- Mecanismos autoimunes: doença de Menière tem associação com doenças autoimunes sistêmicas (tireoide, artrite reumatoide) e pode ter componente inflamatório autoimune
- Infecção viral: herpes vírus latente no gânglio vestibular tem sido implicado em casos de Menière unilateral
- Fatores vasculares: enxaqueca tem alta prevalência em pacientes com Menière, e a relação entre enxaqueca e tontura vestibular é objeto de intensa investigação
- Fatores desencadeantes: estresse, privação de sono, excesso de sódio e cafeína são reconhecidos como precipitantes de crises em muitos pacientes
Diagnóstico da doença de Menière em BH
O diagnóstico de Menière é predominantemente clínico, baseado na história e nas características dos sintomas, mas requer exames para confirmar a perda auditiva, caracterizar o padrão típico e afastar outras condições:
- Audiometria tonal e vocal: fundamental. Na Menière, mostra tipicamente perda neurossensorial nas frequências graves (250 Hz e 500 Hz) e médias, padrão ascendente ou em "U", o oposto do padrão da presbiacusia. A flutuação entre exames realizados em momentos diferentes reforça o diagnóstico.
- Imitanciometria: afasta patologia do ouvido médio como causa dos sintomas
- VEMP (Potencial Evocado Miogênico Vestibular): avalia o sáculo e o utrículo (estruturas do labirinto); alterações são características da Menière e auxiliam no diagnóstico e no planejamento terapêutico
- VENG (Videonistagmografia) ou VNG: avalia a função do canal semicircular horizontal; pode mostrar hipofunção vestibular no lado acometido
- Ressonância magnética com gadolínio intratimpânico: técnica avançada que permite visualizar a hidrópsia endolinfática diretamente; indicada em casos de diagnóstico incerto ou suspeita de Menière bilateral
- RM de fossa posterior: para afastar neurinoma do acústico, que pode simular Menière com surdez flutuante
Tratamento: do conservador ao cirúrgico
O tratamento da doença de Menière é escalonado, começando pelas intervenções menos invasivas com maior relação benefício-risco e avançando conforme a resposta clínica.
Primeira linha: tratamento conservador
A base do tratamento conservador é a modificação dietética e o uso de medicamentos que reduzem a produção ou aumentam a eliminação de endolinfa:
- Restrição de sódio: menos de 2 gramas de sódio por dia (equivalente a aproximadamente 5g de sal de cozinha). Reduzir embutidos, enlatados, fast food, molho de soja e salgadinhos industrializados. É a medida com maior evidência e menor custo.
- Restrição de cafeína: café, chá preto, refrigerantes e energéticos podem precipitar crises em alguns pacientes sensíveis
- Diuréticos: a combinação de hidroclorotiazida com triamterene (ou amilorida) é a mais utilizada; reduz o volume de endolinfa ao promover eliminação renal de sódio e água
- Betaistina: medicamento com ação sobre os receptores de histamina do labirinto; amplamente usada em todo o mundo para reduzir a frequência das crises, embora a evidência dos ensaios clínicos seja controversa
- Controle do estresse: estresse é reconhecido como precipitante de crises; técnicas de relaxamento, psicoterapia e manejo da ansiedade são parte do tratamento
Segunda linha: injeções intratimpânicas
Quando o tratamento conservador não controla adequadamente as crises de vertigem, as injeções intratimpânicas são o próximo passo:
- Corticoide intratimpânico: dexametasona ou metilprednisolona injetada diretamente no ouvido médio. Tem efeito anti-inflamatório e pode reduzir a hidrópsia. Vantagem: não causa perda auditiva adicional. Pode ser repetida.
- Gentamicina intratimpânica: antibiótico aminoglicosídeo que, em baixas doses aplicadas localmente, causa ablação química do epitélio vestibular sensível, reduzindo drasticamente as crises de vertigem. Desvantagem: risco de agravar a perda auditiva no ouvido tratado. Reservada para casos com perda auditiva já significativa ou refratários às demais opções.
Terceira linha: cirurgia
Para os casos verdadeiramente refratários (estimados em menos de 10% dos pacientes), existem opções cirúrgicas:
- Descompressão do saco endolinfático: procedimento que amplia o saco endolinfático para facilitar a drenagem da endolinfa. Preserva a audição e tem razoável evidência para controle da vertigem.
- Neurectomia vestibular: secção cirúrgica do nervo vestibular, preservando o nervo coclear (audição). Controle da vertigem próximo de 95%, mas é cirurgia de grande porte (acesso intracraniano).
- Labirintectomia: remoção cirúrgica do labirinto, indicada apenas quando a audição já está destruída no ouvido acometido. Controle definitivo da vertigem, com perda total da audição residual no lado operado.
Reabilitação auditiva
Com a progressão da doença, a perda auditiva tende a se tornar permanente. A indicação de aparelho auditivo e, nos casos de surdez profunda, de implante coclear, são parte importante do manejo integral do paciente com Menière avançada.
Impacto na qualidade de vida e manejo a longo prazo
A doença de Menière é uma condição crônica com impacto significativo na qualidade de vida. A imprevisibilidade das crises é frequentemente o fator mais limitante: pacientes evitam dirigir, trabalhar em alturas, viajar e participar de situações sociais pelo medo de uma crise. A ansiedade antecipatória (o medo constante da próxima crise) pode ser tão incapacitante quanto as crises em si.
O manejo de longo prazo inclui consultas regulares para ajuste do tratamento, audiometrias periódicas para monitorar a perda auditiva, e atenção à saúde mental do paciente. Grupos de apoio e acompanhamento psicológico são frequentemente recomendados para pacientes com impacto funcional importante.
Se você está com tontura ou vertigem recorrente, zumbido e sensação de ouvido cheio, a avaliação especializada é o caminho para o diagnóstico correto e o início do tratamento mais adequado para sua situação.
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Crises de vertigem intensa e imprevisível não precisam ser uma sentença. A Dra. Mariana Castro Denaro realiza avaliação completa para doença de Menière e outras causas de vertigem no consultório no Santa Efigênia, em Belo Horizonte, com protocolo diagnóstico estruturado e tratamento individualizado. Entre em contato pelo WhatsApp para agendar.
Agendar pelo WhatsAppPerguntas frequentes
Como distinguir a doença de Menière de outras causas de vertigem?
A doença de Menière se distingue pela tétrade clínica clássica: crises episódicas de vertigem rotatória intensa (duração de 20 minutos a várias horas), perda auditiva flutuante (piora nas crises e pode melhorar entre elas), zumbido unilateral geralmente de baixa frequência, e plenitude auricular (sensação de ouvido cheio ou sob pressão). A VPPB (causa mais comum de vertigem) é diferente: dura apenas segundos e é desencadeada por posição específica (deitar, virar na cama). A neurite vestibular causa vertigem prolongada contínua, mas sem sintomas auditivos. O diagnóstico correto pelo especialista é fundamental para o tratamento adequado.
A doença de Menière tem cura?
Não existe cura definitiva para a doença de Menière no sentido de eliminar permanentemente a causa subjacente (hidrópsia endolinfática). No entanto, a maioria dos pacientes alcança controle eficaz dos episódios com o tratamento clínico adequado: dieta com restrição de sódio, diuréticos e betaistina. Estudos mostram que 60% a 80% dos pacientes têm redução significativa das crises com tratamento conservador. Nos casos refratários, existem opções de segunda e terceira linha (injeções intratimpânicas, cirurgia) que controlam a vertigem na maioria dos pacientes.
Por que a dieta com restrição de sódio ajuda na doença de Menière?
A doença de Menière está associada ao acúmulo excessivo de endolinfa no labirinto membranoso (hidrópsia endolinfática). O sódio em excesso na dieta contribui para a retenção de líquidos, incluindo no espaço endolinfático, o que piora a hidrópsia e precipita as crises. A restrição de sódio para menos de 2 gramas por dia (equivalente a cerca de 5g de sal) e a redução de cafeína, álcool e glutamato monossódico fazem parte do tratamento de base e podem reduzir significativamente a frequência das crises.
O que é a injeção intratimpânica de gentamicina?
A gentamicina intratimpânica é um tratamento de segunda linha para doença de Menière refratária ao tratamento clínico. A gentamicina é um antibiótico aminoglicosídeo que, em baixas doses aplicadas diretamente no ouvido médio (de onde atravessa para o ouvido interno), causa ablação química preferencial das células do labirinto vestibular (equilíbrio), reduzindo as crises de vertigem. O risco principal é piora da perda auditiva no ouvido tratado, por isso é indicada quando a perda já é significativa ou quando o benefício no controle da vertigem supera o risco auditivo.
A doença de Menière pode afetar os dois ouvidos?
A doença de Menière começa de forma unilateral (em um ouvido) na grande maioria dos casos. Com o tempo, estima-se que 15% a 40% dos pacientes desenvolvam acometimento bilateral, especialmente após 10 a 20 anos de doença. O acometimento bilateral é mais comum em pacientes com história familiar de Menière e naqueles com doenças autoimunes. Quando há suspeita de Menière bilateral, a investigação deve incluir afastar outras condições sistêmicas que podem causar hidropsia bilateral, como sífilis otológica, síndrome de Cogan e doenças autoimunes do ouvido interno.
Fontes e referências
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