A surdez congênita é a deficiência sensorial mais comum ao nascimento e, ao mesmo tempo, uma das condições que mais se beneficia de intervenção precoce. Identificar e tratar adequadamente uma criança com surdez antes dos seis meses de vida pode significar a diferença entre ela se desenvolver com linguagem oral plena ou enfrentar atrasos significativos na comunicação e na cognição. Em Belo Horizonte, esse percurso começa com a triagem neonatal e exige acompanhamento especializado contínuo.

A Dra. Mariana Castro Denaro, otorrinolaringologista com foco em otologia e audiologia no Santa Efigênia, atua há mais de 20 anos no diagnóstico e tratamento de perda auditiva, com coordenação do programa de saúde auditiva no HC/UFMG. Com mais de 15.500 pacientes atendidos ao longo da carreira e formação complementar na Fundação FISH (Suíça), ela tem experiência específica no cuidado de crianças com surdez congênita, da confirmação diagnóstica à indicação de implante coclear.

Causas genéticas: a mutação no gene GJB2

Aproximadamente metade de todos os casos de surdez congênita tem origem genética. Dentro dessa categoria, existem dois grupos principais: as surdezas sindrômicas (associadas a outras malformações ou síndromes) e as não sindrômicas (surdez isolada, sem outros achados clínicos associados). As não sindrômicas representam cerca de 70% das surdezas genéticas.

A causa genética isolada mais frequente de surdez não sindrômica em todo o mundo é a mutação no gene GJB2, que codifica a proteína conexina 26. Essa proteína está presente nas células de suporte da cóclea e é fundamental para o transporte de íons potássio necessário para a transdução sonora. Mutações bialélicas (em ambos os alelos) causam surdez neurossensorial de moderada a profunda.

  • Padrão de herança: autossômico recessivo, ambos os pais podem ser portadores sem ter surdez e ter 25% de chance de ter filhos afetados.
  • Diagnóstico: teste genético molecular (sequenciamento do gene GJB2), disponível no SUS por meio do sistema de saúde auditiva.
  • Importância do diagnóstico genético: confirma a causa, orienta aconselhamento genético familiar, e tem valor prognóstico para a resposta ao implante coclear (pacientes com surdez por GJB2 têm excelentes resultados com implante).

Outras síndromes genéticas que cursam com surdez incluem a Síndrome de Usher (surdez + retinite pigmentosa), Síndrome de Pendred (surdez + bócio tireoidiano), Síndrome de Waardenburg (surdez + alterações de pigmentação) e Síndrome de Alport (surdez + nefropatia). A investigação para essas síndromes é feita quando o exame clínico revela outros achados além da surdez.

CMV congênito: a causa infecciosa que pode escapar da triagem

O citomegalovírus (CMV) congênito merece atenção especial porque é a principal causa infecciosa não genética de surdez na infância, e tem uma característica que a torna particularmente traiçoeira: a surdez pode ser progressiva e se instalar meses ou anos após o nascimento, quando a triagem neonatal já foi aprovada como normal.

  • Epidemiologia: o CMV congênito afeta aproximadamente 0,5 a 1% de todos os nascidos vivos no Brasil. A maioria dos bebês infectados (90%) é assintomática ao nascimento.
  • Surdez por CMV: aproximadamente 10 a 15% dos bebês com CMV congênito sintomático e 10% dos assintomáticos desenvolvem perda auditiva. Estima-se que o CMV seja responsável por cerca de 20 a 25% das perdas auditivas na infância que surgem ou progridem na primeira infância.
  • Caráter progressivo: ao contrário da surdez genética, que geralmente está presente e estável ao nascimento, a surdez por CMV pode surgir após uma triagem neonatal normal e progredir de forma assimétrica ao longo dos anos.
  • Monitoramento obrigatório: todos os bebês com diagnóstico confirmado de CMV congênito devem ter audiometria seriada (a cada 6 meses) até os 5 a 6 anos de vida, independentemente do resultado da triagem neonatal.
  • Tratamento antiviral: nos casos de CMV congênito sintomático, o tratamento precoce com valganciclovir (nas primeiras semanas de vida) demonstrou reduzir o risco de progressão da perda auditiva, mais uma razão para o diagnóstico precoce.

Triagem neonatal e protocolo diagnóstico em BH

A triagem neonatal auditiva é obrigatória no Brasil desde 2010 (Lei 12.303/2010), devendo ser realizada em todas as maternidades antes da alta hospitalar. O objetivo é identificar recém-nascidos com risco de perda auditiva e encaminhar para confirmação diagnóstica dentro da janela de intervenção ideal.

O protocolo recomendado pelo Ministério da Saúde para Belo Horizonte e todo o Brasil é o chamado 1-3-6:

  • Até 1 mês: triagem realizada na maternidade com EOA (Emissões Otoacústicas Evocadas). Em casos de falha ou presença de fatores de risco, complementar com BERA (Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefálico).
  • Até 3 meses: diagnóstico audiológico confirmado com avaliação completa, BERA diagnóstico, audiometria comportamental de observação (0 a 6 meses) e imitanciometria.
  • Até 6 meses: início da intervenção, adaptação do aparelho auditivo (AASI) e início da estimulação auditiva e da terapia fonoaudiológica. Em casos de surdez profunda, avaliação para indicação de implante coclear.

Em Belo Horizonte, o HC/UFMG, onde a Dra. Mariana coordena o programa de saúde auditiva, é referência para diagnóstico e reabilitação de surdez congênita, incluindo o Programa de Implante Coclear.

Tratamento: aparelho auditivo e implante coclear

O tratamento da surdez congênita depende do grau da perda auditiva, da causa identificada e da resposta à amplificação. As opções principais são:

Aparelho auditivo versus implante coclear na surdez congênita infantil
CaracterísticaAparelho auditivo (AASI)Implante coclear
IndicaçãoPerdas de leve a severa com resposta à amplificaçãoSurdez profunda bilateral sem benefício suficiente com AASI
Idade ideal de inícioAntes dos 6 mesesAntes dos 12–18 meses para melhor resultado de linguagem
Como funcionaAmplifica os sons para estimular a cóclea residualEstimula diretamente o nervo auditivo por eletrodos
CirurgiaNão cirúrgicoCirurgia para inserção do receptor e eletrodos na cóclea
ReabilitaçãoFonoaudiologia para estimulação auditiva e oralFonoaudiologia intensiva para aprendizado da linguagem oral
Cobertura no SUSSim, pelo Programa de Saúde AuditivaSim, em centros credenciados como HC/UFMG
  • Terapia fonoaudiológica: componente essencial do tratamento em qualquer grau de perda. Trabalha o desenvolvimento da linguagem oral, da percepção auditiva e da fala. Deve iniciar concomitantemente à adaptação do aparelho auditivo ou do implante.
  • Libras (Língua Brasileira de Sinais): reconhecida como língua oficial da comunidade surda no Brasil, a Libras pode ser uma opção complementar ou primária para famílias que optam pela identidade surda. Não é excludente com o implante coclear, a decisão é da família, com suporte de equipe multidisciplinar.

Rede de apoio e recursos em Belo Horizonte

Famílias de crianças com surdez congênita em Belo Horizonte contam com uma rede de suporte que inclui:

  • HC/UFMG, Programa de Saúde Auditiva: referência estadual para diagnóstico, adaptação de AASI, implante coclear e acompanhamento multidisciplinar.
  • CER (Centros Especializados em Reabilitação): unidades do SUS que oferecem avaliação audiológica, adaptação de AASI e terapia fonoaudiológica para crianças com deficiência auditiva.
  • APAE-BH: oferece suporte educacional e terapêutico para crianças com deficiência, incluindo surdez.
  • Consultório da Dra. Mariana Castro Denaro: avaliação otorrinolaringológica especializada, diagnóstico etiológico, indicação de implante coclear e acompanhamento cirúrgico. Rua Padre Rolim, 515, 8º andar, Santa Efigênia, Belo Horizonte.

Agende sua consulta em Belo Horizonte

Se seu filho não passou na triagem neonatal, se você tem histórico familiar de surdez congênita ou se percebeu que seu bebê não reage a sons, não espere. O tempo é determinante para o desenvolvimento da linguagem. Agende uma avaliação com a Dra. Mariana Castro Denaro no consultório da Rua Padre Rolim, 515, 8º andar, Santa Efigênia, Belo Horizonte.

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Perguntas frequentes

O que é surdez congênita e quão comum é?

Surdez congênita é a perda auditiva presente ao nascer ou que surge nos primeiros meses de vida. Afeta 1 a 3 por cada 1.000 nascidos vivos com perda auditiva significativa (moderada a profunda), chegando a 6 por 1.000 quando se incluem perdas leves. É a deficiência sensorial congênita mais comum. Ao contrário do que muitos pensam, a maioria dos bebês com surdez congênita nasce de pais ouvintes, por isso a triagem neonatal universal é tão importante.

Quais são as causas mais comuns de surdez congênita?

Cerca de 50% dos casos têm causa genética. A mutação no gene GJB2 (que codifica a proteína conexina 26) é a causa isolada mais comum de surdez congênita não sindrômica em todo o mundo, incluindo no Brasil. Entre as causas não genéticas, a infecção congênita por citomegalovírus (CMV) é a mais frequente e importante, pode causar surdez progressiva que não é detectada na triagem neonatal inicial e requer monitoramento auditivo por 3 a 5 anos. Rubéola congênita, toxoplasmose, prematuridade, anóxia neonatal e ototoxicidade neonatal são outras causas.

O que é a triagem neonatal auditiva e como funciona?

A triagem neonatal auditiva (conhecida popularmente como 'teste da orelhinha') é obrigatória no Brasil pelo Programa Nacional de Triagem Neonatal. Ela é realizada ainda na maternidade, geralmente entre o 2º e o 3º dia de vida. O exame de primeira escolha é a Emissão Otoacústica Evocada (EOA), que avalia a função das células ciliadas externas da cóclea. Em bebês de risco (prematuros, UTI neonatal, histórico familiar, infecções congênitas), é complementada pelo BERA (Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefálico). Um resultado 'falhou' não é diagnóstico de surdez, indica necessidade de reavaliação.

Quando o bebê com surdez congênita deve receber tratamento?

As diretrizes internacionais e o Ministério da Saúde brasileiro recomendam o protocolo 1-3-6: diagnóstico confirmado até 1 mês, avaliação audiológica completa até 3 meses, e início do tratamento (adaptação de aparelho auditivo ou indicação de implante coclear) até 6 meses de vida. O motivo é que os primeiros 3 anos de vida, especialmente o primeiro, são a janela crítica do desenvolvimento da linguagem. Quanto mais precoce a estimulação auditiva, melhores os resultados de fala e linguagem.

Aparelho auditivo ou implante coclear: qual a diferença para surdez congênita?

O aparelho auditivo (AASI, Aparelho de Amplificação Sonora Individual) amplifica os sons e é indicado para perdas auditivas de leve a severa. É o tratamento inicial para a maioria dos casos de surdez congênita. O implante coclear é um dispositivo eletrônico implantado cirurgicamente que estimula diretamente o nervo auditivo, indicado para surdez profunda bilateral quando o aparelho auditivo não proporciona benefício suficiente. Em crianças com surdez profunda congênita, o implante antes dos 12 meses de idade resulta nos melhores desfechos de fala e linguagem.

O CMV congênito pode causar surdez que não aparece na triagem neonatal?

Sim, e este é um ponto crítico frequentemente subestimado. O citomegalovírus (CMV) congênito é a principal causa infecciosa não genética de surdez congênita. Em cerca de 10 a 15% dos bebês infectados com CMV, a surdez é progressiva e não está presente ao nascimento, o que significa que a triagem neonatal pode ser normal e a surdez se desenvolver nos primeiros 3 a 5 anos de vida. Por isso, todos os bebês com diagnóstico de CMV congênito devem ter monitoramento auditivo seriado (audiometria ou BERA) durante esse período, independentemente do resultado inicial.

Fontes e referências

As informações desta página têm finalidade educativa e não substituem consulta médica, diagnóstico individualizado ou atendimento de urgência e emergência. Consulte sempre um profissional de saúde habilitado.